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  • Álysson Correia

Conceito interessante; Execução tendenciosa.


Ultimamente uma frase tem sido muito repetida, algo que palestrantes motivacionais, livros, podcasts e especialistas falam e que tem um poder muito grande: Se você mudar a maneira como enxerga a vida, a vida muda. Por que essa frase é tão poderosa? Porque é verdade. Passei muito tempo olhando o mundo através de uma lente negativa, exacerbada por notícias assustadoras, lugares e pessoas tóxicas. Mas a partir do momento que agi, mudando além de minhas atitudes, minha visão de mundo, tudo mudou e a leveza começou a retornar.

Com isto em mente, Heal é um documentário interessante que argumenta em favor da noção de que a mente controla o corpo e, ao nutrir isso, podemos curar qualquer doença. Dirigido, produzido e escrito por Kelly Noonan, uma atriz americana, essa ideia é explorada por meio de entrevistas com médicos, curadores espirituais e cientistas, bem como pessoas que se beneficiaram dessa maneira de pensar. Para ajudar algumas das implicações biológicas e físicas mais complicadas, diagramas e animações são usados para explicar o que está sendo dito.

Após uma breve introdução, o documentário apresenta três ou quatro principais estudos de caso com entrevistas face a face e fotografias de arquivo mostrando as várias doenças que afetaram cada indivíduo. Com a maioria das filmagens praticamente inteiras nos Estados Unidos, Heal adota uma abordagem um tanto tendenciosa em seu argumento, usando o sistema de saúde dos EUA para argumentar contra a medicina convencional por causa das gananciosas corporações responsáveis pelo setor. Do ponto de vista pessoal, tenho visto esse tipo de mudança mental na minha vida, mas a falta de estatísticas sobre a taxa de sucesso da medicina alternativa em casos extremos como tumores malignos torna isso um pouco questionável.

Focando sempre no lado positivo, Heal não chega a tocar em perguntas que acho que acrescentariam muito à discussão. O que acontece quando a mente não é forte o suficiente para curar? O que acontece quando você sai dessa mentalidade positiva e volta à negatividade novamente? Estas e outras perguntas nunca são analisadas, nem há entrevistas com cirurgiões ou cientistas que argumentem contra a ideia central do documentário.

Com poucas ou nenhuma estatística sobre os efeitos colaterais negativos ou o número de pessoas que não conseguiram se beneficiar desse tratamento, é melhor considerar o documentário por seu valor de face. Sim, o bem-estar faz uma grande diferença em sua vida e acredito que qualquer pessoa sã recomendaria totalmente uma dieta saudável e atitude positiva. O que senti falta foi de mostrar mais afundo o quanto as terapias alternativas podem fazer parte do processo de prevenção e deixar mais claro que não é responsável largar todo e qualquer tratamento de uma doença grave para utilizar tratamentos alternativos.

No Brasil, por exemplo, o SUS já utiliza mais de 20 diferentes terapias alternativas (chamadas de integrativas) para auxiliar no tratamento e prevenção de várias doenças. Principalmente aquelas onde estresse e ansiedade tem um papel importante e negativo na vida do paciente.

Heal é um documentário fascinante, educativo e desafiador, mas também um que nunca oferece um argumento equilibrado. A relação entre mente e corpo é algo que é fascinante para mim, mas como os cientistas entrevistados mesmo dizem: estamos apenas começando a entender tudo isto. Eu acho que chás de ervas podem curar o câncer? Não. Acredito que sua mente pode melhorar sua saúde geral e seu sistema imunológico? Absolutamente. Eu só queria que houvesse mais equilíbrio no argumento para que quem assistisse não ficasse com uma ideia tendenciosa.

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